Quando devo me preocupar com o peso do meu filho?
Nutrição e Alimentação
28 de fevereiro de 2026

O peso isolado não diz nada. O que importa é a trajetória, e o que ela revela sobre a saúde metabólica e renal da criança.
Em 15 anos de consultório, uma das perguntas que mais ouço dos pais é: "Dra. Helen, meu filho está acima do peso. Devo me preocupar?" A resposta honesta é: depende. E o que faz toda a diferença é saber do quê depende.
O peso não é um número, é uma trajetória
O erro mais comum que vejo é avaliar o peso da criança de forma isolada. Um número na balança, sem contexto, diz muito pouco. O que eu olho em cada consulta é a curva: como esse peso evoluiu nos últimos meses, como ele se relaciona com a altura, com a idade e com o histórico familiar daquela criança específica.
Uma criança que sempre cresceu no percentil 85 e se mantém estável é diferente de uma criança que cruzou dois percentis para cima em seis meses. O segundo caso precisa de investigação. O primeiro, de acompanhamento.

O que a formação em nefrologia pediátrica muda nessa avaliação
Foi durante minha formação no Hospital das Clínicas da USP que comecei a entender algo que mudou minha prática clínica: o excesso de peso na infância não é apenas uma questão metabólica. Ele é também uma ameaça renal silenciosa.
A obesidade infantil causa alterações na pressão dentro dos rins anos antes de qualquer sintoma aparecer. Essa pressão elevada, chamada de hiperfiltração, vai danificando o tecido renal progressivamente. Quando os primeiros sinais surgem no exame de urina, o processo já tem anos de evolução.
Por isso, em toda consulta de puericultura que faço, avalio pressão arterial e peço urina de rotina para crianças com excesso de peso ou histórico familiar de risco. Essa não é uma prática universal na pediatria. Na minha prática, é inegociável.
Sinais que indicam que é hora de consultar
Procure avaliação pediátrica especializada se seu filho apresentar ganho de peso acima da curva esperada para a idade, cansaço fora do comum sem causa aparente, ronco frequente ou pausas respiratórias durante o sono, pressão arterial elevada em medições repetidas, alterações em exame de urina como proteína ou sangue, ou histórico familiar de diabetes, doença renal ou hipertensão precoce.
Esses sinais não confirmam nenhum diagnóstico. Mas indicam que uma avaliação clínica completa, com olhar pediátrico e nefropediátrico integrado, é necessária.

Conclusão
O peso do seu filho não precisa ser uma fonte de culpa ou ansiedade. Precisa ser acompanhado com regularidade, critério e um olhar que vá além da balança. É exatamente isso que proponho em cada consulta.
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